Um luxo e um lixo
Luxo: "A casa dos espíritos" clássico baseado na fantástica obra de Isabel Allende, e a respeito do qual eu mesmo desacreditava ver algo melhor ou no nível do filme famoso e belíssimo de 1993 com Jeremy Irons e Meryll Streep. Acontece que por uma razão de "latinidades" difíceis de descrever, a série é melhor. O filme, mais político e mais "duro" no foco escolhido de narrativa, e a série muito mais próxima do realismo mágico latino, com toda a beleza que envolve, mesmo para narrar um monstruoso momento da história do Chile -- embora, como se sabe, o Chile não seja citado literalmente -- (e tão familiar a nosotros que também vivemos uma ditadura).
Lixo: 3a temporada de "Euphoria". Alguém defina isso, por gentileza. Como uma linha inteligente de série -cinema, um texto vibrante, diálogos muito bem construídos , atuações excelentes e uma forma sem igual de traduzir a existência da juventude 2020 em um mundo caótico urbano e contemporâneo, como tudo isso das 2 primeiras temporadas simplesmente é destruído para se criar uma cópia mal feita da mistura de um Breaking-Bad de baixo orçamento trash com Pulp Fiction sem a mínima noção de conteúdo ou tempo de ação? Inacreditável e deprimente a caracterização de personagens (ricos e complexos até então), e a guinada como se fossem outras criaturas e não aquelas que habitaram as duas outras temporadas. Isso pra não falar (spoiler) de um final carregado de messianismo no intervalo entre tiros e bombas desse Pseudo-Western e uma tese pra lá de esquisita de que, levando jovens problemáticos para uma fazenda no meio do Oeste isolados do resto do mundo, local habitado por uma família de perfil fundamentalista e tacando a Bíblia (naquela abordagem meio Amish, meio WASP) sobre eles, isso resolveria as maiores questões da humanidade. Lamentável! E por que não dizer? Mais um sintoma trágico da era Trump, a mais tóxica dos últimos 50 anos.

