Nolan na área mais uma vez (spoiler).
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Um Agamenon semideus com estética meio Batman (a internet não perdoa). Assunto meio besta, aliás, e miltemas de memes, mas se esquecem que na verdade a estética dos heróis dos quadrinhos é que remete à antiguidade clássica e principalmente suas variações Gregas, Romanas, Celtas, Vikings, Persas & cia. Nesse sentido, para qualquer leitor de história e de quadrinhos, é muito mais fácil descobrir que na verdade é o Batman que, tirando suas orelhas pontudas de morcego, tem os trajes semelhantes às armaduras de guerra de Gregos e Romanos de 3000 anos atrás
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O apagamento da memória de Aquiles, até mesmo na visita ao Hades, e a frase por ele então proferida, talvez a mais poderosa, sobre uma certa linha fenomenológica de se compreender a Grécia Clássica. Óbvio que Aquiles não é protagonista aqui como na "Ilíada", e sobrevive apenas em memória após sua morte, mas deliberadamente apagar o nome cria uma enorme lacuna e soa incoerente ao tratar de um clássico
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Como não uso a palavra reapropriação sem sentir dor no estômago , então trata-se de reinvenção, releitura do espaço do clássico com
alguma aproximação do contemporâneo e muita saudável provocação, entre outras trazendo Helena e Clitemnestra negras (a bela e expressiva Lupita Nyiongo), ótimo soco na cara da Era Trump -WASP/MAGA.
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Muito pouco de Homero na essência (ou quem quer que, de fato, tenha escrito a Odisseia) -- com o conhecido e sólido consenso histórico de que o mesmo que escreveu a Ilíada não poderia jamais ter escrito a Odisseia, pelo imenso tempo cultural e civilizatório decorrido entre uma e outra era.
A curiosidade é que, por essa mesma razão, por não seguir de forma linear a narrativa mais conhecida, Nolan acabou fazendo um bom filme.
A mesma intenção de releitura que fez "O retorno" 2025 , abordagem da Odisseia por Uberto Pasolini parecer mais uma versão de "Cenas de um casamento" do Bergman do que o original, faz com que o filme de Nolan seja um belo filme. Não é grandioso.
Tróia (2004), última grande narrativa da Iliada no cinema, é grandioso, épico, beira a perfeição. Gladiador (2000) é grandioso, Alexandre (2004) igualmente. Esta Odisseia de Nolan é outra coisa. E na verdade é até bom que se proponha essa diferença.
Tem uma fotografia primorosa, que em alguns momentos lembra os "300" de Esparta 2006 (sem o exagero das sombras e grafismos a la "graphic novel" que fizeram o rei Xerxes de Rodrigo Santoro parecer um ET de 3 metros de altura), mas não prima tanto por técnica ou efeitos especiais, maquinaria, e apesar do ótimo elenco, talvez lá nem tanto também por uma questão de atuações homéricas -- com trocadilho e tudo -- mas sim pelo fino trato existencial das questões humanas e sua relação com a vida, com o tempo e a trajetória do humano na Terra e sua árdua e corajosa lida com a natureza exterior, com a condição mortal, confrontando-a, as intempéries e o universo (os deuses) com o sofrimento na breve e frágil existência de uma vida e afogado em contradições. Com boa atuação de Matt Damon como um Ulisses reflexivo, um pouco diferente do "herói em ação" típico de Aquiles ou Agamenon, isso dá o tom da Odisseia como um retorno a casa, mas sobretudo um retorno a si mesmo passando pelas voltas do mundo e adquirindo conhecimento a um alto preço, o que cria uma jornada poucas vezes tão bem colocada na telona. A cena onde Odisseu vai até o Hades e ouve respostas terríveis dos mortos -- que na verdade enaltecem sofregamente a vida -- é marcante.
A contradição aparente é que, neste filme, Nolan ao se afastar deliberadamente em alguns pontos da abordagem acadêmica da narrativa homérica, envereda por questões dos personagens que são também, por si sós, questões universais e perenes ponderadas de forma única pela Grécia antiga, algumas inclusive se tornando futuramente pontos de reflexão da Filosofia socrático -platonica alguns séculos depois: Estado, política, civilização e barbárie; as demandas da Polis, a imortalidade da alma; a relação com os deuses, destino e missão; virtude, ética e tantas outras. Sendo assim, por outro viés talvez o diretor tenha preservado mais da intenção homérica do que se fosse fiel às estruturas fixas de ação e roteiro do texto.
Fica uma questão subliminar - de gosto pessoal, acidente ou um questionamento intencional?Agamenon, apesar da sua importância como general em campo do bloco grego, aparece o tempo inteiro com uma imponente imagem que muito transcende seu papel nas narrativas, tanto Ilíada quanto a Odisseia, enquanto Aquiles, o maior herói grego, um semideus, foi apagado da memória. A proposta é trazer ao palco a humanidade em todos os seus aspectos , no foco em Odisseu e na humanidade dos "heróis", posta à prova na figura do Rei de Micenas - tão cruel e ganancioso na guerra, tão confuso e perdido, irascível, mas um tanto ingênuo na vida doméstica, causa maior de sua tragédia no retorno, ou seja, personagens míticos mas humanos demasiado humanos, enquanto a clareza solar de Aquiles e sua perfeição e virtudes insuperáveis na guerra o tornaram o elemento inalcançável para o humano, algo muito mais no terreno dos deuses e portanto uma "má referência" para se falar da vida?
Seguindo de um jeito torto à sua maneira, Nolan acaba revivendo o real espírito especulativo e empreendedor da Grécia antiga, mudando a narrativa ao torcer este ou aquele personagem e diminuindo ou aumentando o espaço de outros, recolocando num plano material, psicológico , a figura dos deuses que jogam carta no Olimpo com as vidas humanas. Como a presença de Palas Atena (Zendaya, como Zendaya) em forma de consciência dialógica, a bruxa Circe (a incrível Samantha Morton) dando lições materiais de "boas maneiras" e ética aos homens animalizados (bestializados talvez melhor palavra) pela guerra. Agora os deuses saem um pouco do cenário e são os homens, como nos diálogos em flashback oniricos de Odisseu enquanto dialoga com Calypso (a belíssima Charlize Theron, muito bem no papel), que agem por suas próprias mãos causando tamanhas tragédias e têm que enfrentar a consequência dos seus atos, tudo cumprido em nome de uma suposta superioridade, religião ou uma ideia de civilização, mas destruindo tudo em seu caminho.
A reflexão do pós -guerra e seu terror mais do que glória, é o que se apresenta na Odisseia de Nolan e certamente não é uma questão original de Homero, não poderia ser uma questão para o grego Ulisses e seus companheiros, seus valores de época e sua intrincada relação com os deuses presentes em toda parte distribuindo favores e desgraças com a mesma liberdade que tem uma criança quando brinca. Contudo, para os que têm alguma dignidade e propósito elevado, aflição ética deveria valer e o ponto culminante de dizimar uma civilização deveria doer e fazer questionar. É o caso de Ulisses, Odisseu, pela virtude maior da inteligência. Aqui, qualquer comparação com o massacre Palestino pelos Sionistas Israelenses é bem vinda, e outro ponto forte do filme. Embora no livro isso não apareça em momento algum, a grande culpa existencial de Odisseu, como bem mostrada nas cenas da escadaria na tomada definitiva de Tróia, se justifica no olhar contemporâneo, posto que se trata de uma alma nobre, corajosa e que em tantos momentos foi capaz até mesmo de desafiar os deuses, e a queda da cidade afinal se deu por sua estratégia do cavalo, e não pela força bruta depois de sitiada por 10 anos.
Se gosta da coisa, leia a Odisseia que melhor vai se encontrar com Homero (e a Iliada também é claro, onde tudo começou). Mas se quer um bom filme no cinema que se sustenta por si só, este vale a pena .
Com Batman ou sem Batman.
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